Domingo, Maio 16, 2010

Bons costumes

Carminha já era casada com Valdemar há uns 34 anos. Os filhos, uma professora e um gerente de banco, já haviam lhe dado três netos e havia mais um por nascer, dali a uns dois meses.

Ela era dona-de-casa, caminho que havia escolhido sem sofrimento e apesar da insistência de Valdemar, que lamentou muito que a esposa decidisse abandonar a carreira que mal iniciara como jornalista: era tão inteligente, tão articulada, escrevia bem, se relacionava muito bem com os colegas, havia um mundo se abrindo à sua frente.

Mas não. Carminha seguia feliz a rotina tranquila de mãe de família razoavelmente próspera, com necessidades de consumo satisfeitas, vida afetiva feliz. Ela acordava pouco antes do marido, se vestia e preparava o café, que ambos tomavam comentando as tarefas do dia que começava ou os desdobramentos do dia anterior. Ele saía para o trabalho e ao longo do dia ela se dedicava às tarefas domésticas, ao cuidado com a casa, fazia sua ginástica, reservava um bom tempo para leitura. À noite sempre havia o jantar, algum filme, eventualmente uma visita a fazer ou a receber, e antes de dormir Carminha verificava se a calopsita tinha comida e água, se as portas e janelas estavam fechadas, se não havia esquecido alguma torneira aberta, se a lista de supermercado e da feira estava pronta para a manhã seguinte, se a máquina de lavar estava desligada.

Naquela noite ela se deitou mas não dormiu após os cinco minutos, como sempre fazia. Carminha percebeu que faltava algo. A agonia de percebr que algo ficara para trás a fez se remexer na cama por muitos minutos, até que ela percebeu.

Ela se esquecera de tirar a carne do congelador.

3 cutucadas:

Bia, Desperate Housewife disse...

Porra Deh; eu já levantei da cama DE MADRUGADA pra tirar carne do congelador!!!

Suzana Elvas disse...

Porra Deh; eu já levantei da cama DE MADRUGADA pra tirar carne do congelador!!! [1]

Luiz com Z disse...

Esse conto tem um final igualzinho ao pretérito da última frase: mais que perfeito.